"Assim
creio que a generosidade, que leva um homem a estimar-se no mais alto ponto em
que se pode legitimamente estimar, consiste somente, em parte, em conhecer
que não existe nada que verdadeiramente lhe pertence senão essa livre
disposição de suas vontades, nem por que motivo deve ser louvado ou repreendido
senão por usá-la bem ou mal; e, em parte, consite em que sente em si mesmo
firme e constante resolução de usá-la bem, isto é, nunca ter falta de vontade
para empreender e executar todas as coisas que ele julgar ser as melhores. Isso
significa seguir perfeitamente a virtude.
Aqueles que possuem este
conhecimento e esse sentimento de si mesmos persuadem-se facilmente de que cada
um dos outros homens pode também tê-los de si mesmos, porque nada existe nisso
que dependa de outrem. É por isso que nunca desprezam ninguém; e, embora vejam
frequentemente que outros cometem faltas que mostram sua fraqueza, todavia são
mais inclinados a desculpá-los do que a repreendê-los e a crer que é mais por
falta de conhecimento do que por falta de boa vontade que as cometem. E, como
não pensam ser muito inferiores aos que possuem mais bens ou honras, ou até
mais espírito, mais saber, mais beleza, ou geralmente que os superam em algumas
outras perfeições, também não se consideram muito acima dos que eles superam,
porque todas as coisas lhes parecem ser muito pouco consideráveis, em
comparação com a boa vontade pela qual somente se estima, e a qual
supõem também existir, ou pelo menos poder existir, em cada um dos outros
homens.
Assim, os mais
generosos estão habituados a ser os mais humildes, e a humildade virtuosa consiste
apenas em que a reflexão que fazemos sobre a enfermidade de nossa natureza, e
sobre as faltas que podemos outrora ter cometido ou somos capazes de cometer,
que não são menores que as que podem ser cometidas por outros, é a causa de que
não nos prefiramos a ninguém, e pensemos que os outros, tendo seu
livre-arbítrio tão bem quanto nós, podem também usá-lo bem.
Os que são
generosos dessa maneira são naturalmente levados a fazer grandes coisas e,
contudo, a nada empreender de que não se sintam capazes. E, como nada estima de
maior do que fazer o bem aos outros homens e desprezar seu próprio interesse,
por esse motivo são sempre perfeitamente corteses, afáveis e prestativos para
com todos. E, com isso, são inteiramente senhores de suas paixões;
particularmente dos desejos, do ciúme e da inveja, porque não existe nenhuma
coisa, cuja aquisição não dependa deles, que pensem valer bastante para merecer
ser muito desejada; e do ódio para com os homens porque os estima a todos; e do
medo, porque a confiança que dedicam à sua virtude os garante; e, enfim, da
cólera, porque estima apenas muito pouco todas as coisas que dependem de
outrem, jamais concedem tanta vantagem a seus inimigos como reconhecer que são
ofendidos por eles." (Descartes, René - "As paixões da Alma - DPL Editoras - São Paulo: 2004, p. 105 a 106))